Duetto: o ultimo carro desenhado pelo pelo lendário Battista Farina (1893 1966)

Fundador do estúdio Pininfarina. O nome do carro foi escolhido por meio de um concurso organizado pela fábrica. Secundo a empresa, foram recebidas 140000 sugestões. Entre os finalistas há coisas como: Pizza, Gin, Acapulco e Sputnik.

Eu achava que meu vizinho jamais permitiria que alguém dirigisse sua relíquia. Mas não. O convite para uma avaliação partiu dele, que, além de me dar as chaves, ainda deixou que eu rodasse à vontade, me acompanhando no banco do passageiro, enquanto conversávamos. O carro estava precisando de uma boa reforma, mas, entre os que eu já havia visto, era o primeiro que rodava.

E o teste foi maravilhoso. O Spider era melhor do que eu esperava. Gostei da posição de dirigir, do comportamento nas curvas e da elasticidade do motor, que além de esperto ainda produzia um ronco que soava como música para meus ouvidos. De volta à garagem, iniciamos a negociação, mas o proprietário não estava muito decidido a vender – e, ao ver meu entusiasmo com o carro, acho que ficou ainda mais reticente.

Ele contou que comprou o Alfa para restaurá-lo, mas adiou muito esse projeto e acabou por pensar em se desfazer dele. Só que ainda estava em dúvida se seria melhor vendê-lo naquele estado ou após fazer alguns reparos, para conseguir um preço maior. Diante desse dilema, e como o valor que ele pedia já não era baixo, o negócio acabou não se concretizando. Mas não me aborreci. Tornei-me conhecido do vizinho e atualmente, ao passar em frente à casa dele, buzino e cumprimento quando o vejo na porta.

Em minha busca, encontrei vários carros de diferentes cores, estados de conservação e preços. 01972 verde “British Racing”, com o interior caramelo, estava impecável, mas era caro. 01971 azul-marinho com o interior vinho, uma combinação clássica e linda, estava havia muito tempo parado, empoeirado, sem capota, pneus murchos, em péssimo estado. O 1973 branco com interior preto tinha problemas com a documentação. E o outro 1972 era um Frankenstein: branco por fora, verde sob o capo do motor e vermelho por dentro das portas.

Com o tempo, fui esmorecendo na procura e acabei por adiar o plano, sem data para retomada. De qualquer modo, a busca foi divertida e muito proveitosa. Aprendi muito sobre o Alfa Spider e sobre clássicos usados de modo geral. A primeira lição é não ter pressa. Vender um carro é tão difícil quanto comprar, se você é um amador. E sempre haverá uma nova chance, caso você perca uma oportunidade, por algum motivo.

Além disso, manter-se calmo é um bom recurso para negociar o preço. E quantos mais carros encontrar pelo caminho, mais você vai aprender a reconhecer as qualidades e defeitos dos veículos. Outra lição é saber que um carro em bom estado, apesar de custar mais na aquisição, pode sair mais barato, no longo prazo, do que um outro que necessite de muitos reparos.

Não fosse essa minha experiência, eu teria feito um péssimo nego cio comprando um exemplar que encontrei num site de classificados. Nas fotos, esse Alfa parecia íntegro e o preço, justo. O problema é que eu vivo em São Paulo e o Spider estava em Minas Gerais.

Ele era vermelho e tinha o interior preto, ano 1972. O vendedor falava maravilhas. Mas era preciso conferir. Antes de embarcar para Belo Horizonte, liguei para um amigo, o jornalista Waldez Amorim, que morava naquela cidade, e pedi que ele fosse ver o Spider para mim. Ele retornou a ligação eufórico, dizendo que o carro estava ótimo. “Só precisa do carinho de um colecionador”, afirmou, para minha alegria.

Não perdi mais tempo. Peguei o primeiro voo na manhã do dia seguinte e fui ao encontro do sonho. Meu amigo me apanhou no aeroporto e seguimos para o endereço do anúncio. Chegando lá, tive uma decepção.

O carro estava cheio de massa acrílica, com a pintura malfeita e sem frisos e emblemas. Não sabia exatamente o que meu amigo quis dizer com “carinho de colecionador”, mas cheguei à conclusão de que, sem experiência com clássicos, ele deve ter se deixado influenciado pelo vendedor. Ou talvez tenha tentado ser gentil comigo.

Mas, de fato, ele não tinha como avaliar o carro, como eu imaginava. Com certeza, seus critérios de avaliação não batiam com os meus. Hoje, quando lembro, consigo rir desse episódio. Em casa, a expressão “carinho de colecionador” se tornou um bordão para identificar um plano frustrado. Ate hoje, minha mulher não esquece aquela passagem aérea comprada às pressas. Como se vê, Alfa Romeo continua a ser um assunto habitual na família.


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