Entenda como funciona a pontualidade na Europa

Quando cheguei a Lisboa, já passavam das 23 horas. Era incrível, mas à meia-noite terminava a validade do meu passe de trem. Isso indicava que praticamente o utilizará até o último minuto. Estava decidido a voltar ao Brasil o mais rápido possível.

Não queria mais passear nem ver nada, tanto que, em vez de retomar ao albergue – onde tudo havia começado e, por sinal, muito bem – optei pela pensão, que, nos primórdios da minha viagem, tinha recusado por classificá-la como muito cara.

Antes, porém, peguei meu colchonete – que, a essa altura, já estava todo rasgado – e joguei-o no beco. Era uma espécie de desabafo ou prova para mim mesmo de que minha aventura havia terminado.

Na pensão, estava me sentindo “rico”. Peguei o telefone, liguei para a recepção e pedi para me acordarem cedo, pois tinha muito o que fazer. Olhei no espelho e fiz cara de convencido. No mesmo instante, dei boas risadas das minhas próprias caras e bocas.

Sem desarrumar praticamente nada, fui-me deitar. Como símbolo de liberdade, tendo um quarto só para mim, não precisando dividi-lo com mais ninguém – dádiva que só aprendi a valorizar depois de tanto tempo compartilhando meu espaço com outras pessoas resolvi dormir pelado. Que noite deliciosa…

No dia seguinte, na hora marcada, o telefone tocou. Desligo e me fartei com um delicioso café da manha.

Saí e fui direto à agência de viagens para tentar marcar meu voo de volta. Estava bastante apreensivo, imaginando que o avião pudesse estar lotado. Afinal, não fizera nenhuma reserva.

Porém, meu temor foi em vão. Pouco depois, minha volta estava marcada, com decolagem para as 23 horas. De lá, fui até o centro. Comprei um presente para meu irmão, um canivete suíço cheio de “inutilidades” para meu pai e um pequeno suvenir típico de Portugal para mim. Era engraçado ter dinheiro sobrando. Voltei à pensão para guardar minhas novas aquisições.

Com toda a delicadeza e humildade, pedi à dona que estava na recepção que me deixasse ficar até as 18 horas sem cobrar mais nada, quando então partiria de vez para o aeroporto. “O brasileiro” funcionou além de os portugueses demonstrarem mais uma vez ter um carinho todo especial para conosco, do Brasil.

Tinha toda a tarde livre e sabia que ainda faltava visitar o Monumento aos Navegantes ou atravessar a ponte sobre o Tejo. Na verdade, queria até mesmo retornar à Torre de Belém, o marco de Lisboa. Mas tudo parecia que iria requerer muito esforço. Eu estava com preguiça, só queria relaxar.

Decidi, então, ir até a beira do rio. Ao chegar lá, fiquei olhando, distraído, a ponte ao longe. Lembrei-me dos meus primeiros dias no Velho Continente, passeando por aquele mesmo lugar, morrendo de medo do que me aconteceria. Chegava a ser engraçado me ver com temores tão tolos, tão fáceis de serem ultrapassados, mas que na época eram verdadeiras barreiras intransponíveis. Nesse momento, entendi que, apesar de considerar minha empreitada pela Europa como algo simples de realizar, na realidade, não foi.


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