As lembranças mais arcaicas de Barcelona

As companhias aéreas encarregam especialistas de prepararam sua programação musical. Estes buscam desesperadamente consistência e originalidade, dentro das limitações de custo do pagamento de direitos autorais. Criam-se assim programas cujos temas não devem despertar sequer a atenção dos passageiros, os quais só querem algumas distrações para passar o longo tempo da viagem.

No voo da Swissair o programador Chris de Souza, ao comemorar 25 anos da chegada do homem à Lua, optou por selecionar músicas que festejassem astros, juntando peças interessantes: Masques et Bergamasques de Fauré, Noite transfigurada de Schoenberg, Duas miniaturas de Strawinsky e, inevitavelmente, Os planetas de Holst.

Jordi Borja e Mireia Belil aguardavam-me no novo aeroporto projetado por Bonfill em uma Barcelona que estava se preparando para acolher os jogos olímpicos. Bela obra com acabamento irrepreensível e vastos espaços internos em que as altas palmeiras do vestíbulo marcavam, de modo sutil e sofisticado, ter o viajante desembarcado em uma cidade mediterrânea.

Não era esta minha primeira visita a Barcelona, cidade que me atrai e na qual me sinto bem como em poucas; a lembrança mais arcaica é a de 1951, quando, ao cair da noite invernal, desembarcamos do Conte Biancamano, em que viajava em lua-de-mel a caminho de Villefranche na Riviera francesa.

A única lembrança que guardava foi de prelados severamente paramentados, sentados sob luzes individuais nas altas cadeiras especiais em frente do altar da Catedral gótica, orando em voz baixa; também vagamente lembrava a silhueta fantasmagórica das torres iluminadas da inacabada igreja de Gaudi.

Mas as lembranças mais recentes marcam o início de uma amizade nova, com Jordi Borja, que me convidara, por recomendação de Fernando Henrique Cardoso, para participar de um seminário na década de 80. Foi então que descobri a elegante e rica cultura de Barcelona, a língua catalã, a inventiva solução urbanística da extensão urbana projetada por Cerdá em meados do século passado, época da riqueza das tecelagens catalãs; o charme de seu bairro gótico, com o museu da cidade, a bela e ascética igreja gótica de Santa Maria dos Navegantes; a viva carrer Alcalá com seu charmoso Museu Picasso; a Plaza Real com as luminárias de Gaudi e a alternância de seu público: crianças com babás de manhã, colecionadores de moedas e selos à tarde, comércio de drogas à noite.


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